Vós mercê
num sabe quem tá falandoEu sou a
preta velha que amamentou o doutôA preta
velha do céu voltouPra falar com
vós mercê toda verdade. Vós mercê
enganou a genteQuando
disse que a gente era livreTirou a
gente do quilomboE mandou a
gente pra cidade. Cercaram
as nossas terras todinhas,Foi um tá
de coroné criador de gadoPagou um
dinheiro pra nósA gente
pensou que era melhor. Mas eu vou
contar o que aconteceuQuando a
gente chegou na cidadeO nosso
povo cresceuE sabe onde
a gente foi parar? A gente
foi parar na comunidadeUm lugar
onde tudo é difícilNão tem
poço e nem cacimbaUns vive
por baixo e ouros por cima. Chegou um
tá de movimento sociáE convidou
a gente pra se integrar,Disse que
era pra gente conquistarUm lugar
decente pra morar. Levou a
gente pra um prédioOnde o
branco não quis mais morar,A
edificação foi abandonaSem
condições de morar. Tinha um
tá de chefe do movimentoQue
cobrava pra gente morarDizia que
era pra conservar,Mas nada
ele ali fazia. A gente
via o que se passavaO sujeito
só andava de carrãoE a gente
naquela confusãoQue era
morar na sujeira. Nós que dentro
do peitoSentíamos
que não tinha jeitoO quilombo
piorouPorque ele
verticalizou. Todos nós
correndo perigoO capataz
que era nosso amigoEsperto é
quem percebe o perigoEle num se
importou com aquilo Um dia
logo bem cedoA gente
ficou com medoA
instalação pegou fogoE tudo se
acabou. O capataz
desapareceuNinguém
nos socorreuO prédio
pegou fogoE tudo
desabou. O doutor
quer saberComo
acabou essa história?O quilombo
desapareceuE muita
gente morreu. Quando
alguém lhe prometerOuro em
barra sem nada a oferecerFique
atento com o sujeitoPara não
correr perigo. O quilombo
verticalizouSó quem
não percebeu foi o doutôAqui a
gente usa elevadorPra mudar
de andar. Num
adianta brigarCom esse
tá de capatazEle não
usa chicoteComo usava
antigamente. Mas vós
mercê quer saber?Nada mudouEle usa a
inteligênciaPra
enganar a genteAinda diz que
é a nosso favor. Ele
continua usando a genteComo usava
antigamenteExplora o
preto velhoE diz que
tá fazendo favor. Vou
terminar o meu lamentoChega de
sofrimentoVoltei só
pra avisarLá vós
mercê vai pagar. Entenda o
meu recadoNo céu ninguém
entra com pecadosVós mercê
não vai viver eternamenteNinguém
nasce pra semente. A semente
vem de deusPra semear
e prosperarMas depois
tem que voltarE a conta
acertar.
Vós mercê
num sabe quem tá falando
Eu sou a
preta velha que amamentou o doutô
A preta
velha do céu voltou
Pra falar com
vós mercê toda verdade.
Vós mercê
enganou a gente
Quando
disse que a gente era livre
Tirou a
gente do quilombo
E mandou a
gente pra cidade.
Cercaram
as nossas terras todinhas,
Foi um tá
de coroné criador de gado
Pagou um
dinheiro pra nós
A gente
pensou que era melhor.
Mas eu vou
contar o que aconteceu
Quando a
gente chegou na cidade
O nosso
povo cresceu
E sabe onde
a gente foi parar?
A gente
foi parar na comunidade
Um lugar
onde tudo é difícil
Não tem
poço e nem cacimba
Uns vive
por baixo e ouros por cima.
Chegou um
tá de movimento sociá
E convidou
a gente pra se integrar,
Disse que
era pra gente conquistar
Um lugar
decente pra morar.
Levou a
gente pra um prédio
Onde o
branco não quis mais morar,
A
edificação foi abandona
Sem
condições de morar.
Tinha um
tá de chefe do movimento
Que
cobrava pra gente morar
Dizia que
era pra conservar,
Mas nada
ele ali fazia.
A gente
via o que se passava
O sujeito
só andava de carrão
E a gente
naquela confusão
Que era
morar na sujeira.
Nós que dentro
do peito
Sentíamos
que não tinha jeito
O quilombo
piorou
Porque ele
verticalizou.
Todos nós
correndo perigo
O capataz
que era nosso amigo
Esperto é
quem percebe o perigo
Ele num se
importou com aquilo
Um dia
logo bem cedo
A gente
ficou com medo
A
instalação pegou fogo
E tudo se
acabou.
O capataz
desapareceu
Ninguém
nos socorreu
O prédio
pegou fogo
E tudo
desabou.
O doutor
quer saber
Como
acabou essa história?
O quilombo
desapareceu
E muita
gente morreu.
Quando
alguém lhe prometer
Ouro em
barra sem nada a oferecer
Fique
atento com o sujeito
Para não
correr perigo.
O quilombo
verticalizou
Só quem
não percebeu foi o doutô
Aqui a
gente usa elevador
Pra mudar
de andar.
Num
adianta brigar
Com esse
tá de capataz
Ele não
usa chicote
Como usava
antigamente.
Mas vós
mercê quer saber?
Nada mudou
Ele usa a
inteligência
Pra
enganar a gente
Ainda diz que
é a nosso favor.
Ele
continua usando a gente
Como usava
antigamente
Explora o
preto velho
E diz que
tá fazendo favor.
Vou
terminar o meu lamento
Chega de
sofrimento
Voltei só
pra avisar
Lá vós
mercê vai pagar.
Entenda o
meu recado
No céu ninguém
entra com pecados
Vós mercê
não vai viver eternamente
Ninguém
nasce pra semente.
A semente
vem de deus
Pra semear
e prosperar
Mas depois
tem que voltar
E a conta
acertar.
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