13 de out. de 2018

QUILOMBO VERTICAL



Vós mercê num sabe quem tá falando
Eu sou a preta velha que amamentou o doutô
A preta velha do céu voltou
Pra falar a vós mercê toda verdade.

Vós mercê enganou a gente
Quando disse que a gente era livre
Tirou a gente do quilombo
E mandou a gente pra cidade.

Cercaram as nossas terras todinhas,
Foi um tá de coroné criador de gado
Pagou um dinheiro pra nós
A gente pensou que era melhor.

Mas eu vou contar o que aconteceu
Quando a gente chegou na cidade
O nosso povo cresceu
E sabe onde a gente foi parar?

A gente foi parar na comunidade
Um lugar onde tudo é difícil
Não tem poço e nem cacimba
Uns vive por baixo e ouros por cima.

Chegou um tá de movimento sociá
E convidou a gente pra se integrar,
Disse que era pra gente conquistar
Um lugar decente pra morar.

Levou a gente pra um prédio
Onde o branco não quis mais morar,
A edificação foi abandona
Sem condições de morar.

Tinha um tá de chefe do movimento
Que cobrava pra gente morar
Dizia que era pra conservar,
Mas nada ele ali fazia.

A gente via o que se passava
O sujeito só andava de carrão
E a gente naquela confusão
Que era morar na sujeira.

Nós que dentro do peito
Sentíamos que não tinha jeito
O quilombo piorou
Porque ele verticalizou.

Todos nós correndo perigo
O capataz que era nosso amigo
Esperto é quem percebe o perigo
Ele num se importou com aquilo

Um dia logo bem cedo
A gente ficou com medo
A instalação pegou fogo
E tudo se acabou.

O capataz desapareceu
Ninguém nos socorreu
O prédio pegou fogo
E tudo desabou.

O doutor quer saber
Como acabou essa história?
O quilombo desapareceu
E muita gente morreu.

Quando alguém lhe prometer
Ouro em barra sem nada a oferecer
Fique atento com o sujeito
Para não correr perigo.

O quilombo verticalizou
Só quem não percebeu foi o doutô
Aqui a gente usa elevador
Pra mudar de andar.

Num adianta brigar
Com esse tá de capataz
Ele não usa chicote
Como usava antigamente.

Mas vós mercê quer saber?
Nada mudou
Ele usa a inteligência
Pra enganar a gente
Ainda diz que é a nosso favor.

Ele continua usando a gente
Como usava antigamente
Explora o preto velho
E diz que tá fazendo favor.

Vou terminar o meu lamento
Chega de sofrimento
Voltei só pra avisar
Lá vós mercê vai pagar.

Entenda o meu recado
No céu ninguém entra com pecados
Vós mercê não vai viver eternamente
Ninguém nasce pra semente.

A semente vem de deus
Pra semear e prosperar
Mas depois tem que voltar
E a conta acertar.

Nenhum comentário: